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HAIGATOS


TRÊS HAIGATOS PARA O JAPÃO

 

 

 



Escrito por jidduks às 17h04
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HAIGA HAIGATO 1

 

olhar cuirioso -

na lataria do carro

reflexo de núvem

 

(jiddu)

 

 



Escrito por jidduks às 21h48
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Escrito por jidduks às 19h55
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Andréa Motta - Curitiba /PR

A Curitibana Andréa Motta é uma conhecida de todos nós, que amamos o haicai. Seu trabalho já bem consolidado vem cada vez mais marcando presença no cenário da poesia brasileira, vamos conhece-la melhor em sua entrevista para o HAIGATOS.

 

 

Haigatos - Que história você tem para nos contar sobre gatos?

Andréa Motta: A bem da verdade, não gosto muito de gatos domésticos, prefiro felinos selvagens de médio e grande porte, tais como: gato maracajá ( na lista dos animais em extinção), onça pintada e panteras.

 

Miado forte ecoa.

Um gato maracajá

do caçador foge.

 

Um gato selvagem

nascido no cativeiro.

Raça preservada.

 

 

Apesar disto tenho algumas histórias com gatinhos de estimação, em especial com uma gata preta, muito feiosa: magrela, bem velhinha e praticamente cega, chamada “pretinha”. Nos idos dos anos 80 ainda bem jovem e rebelde, resolvi morar e trabalhar no Rio de Janeiro. Trabalhava muito, ganhava pouco e residia num pensionato. Pois bem, a dona do pensionato também era a dona da gatinha. Quando lá cheguei, logo fui avisando: Sou alérgica a pelo de gato e por isto me manterei a distância da gata. Mas, o amor é incontrolável e a “pretinha”, não se importou com o meu distanciamento, tampouco com a minha alergia! A cada dia ficava mais dengosa, espreitava todos meus movimentos e sempre que podia se entrelaçava em minhas pernas. Nos finais de tarde quando eu apontava na esquina ( o edifício ficava no meio da quadra) começava a miadeira e todos sabiam que eu já estava na Portaria, pois a gata ficava literalmente histérica! Atirava seu corpo frágil na porta, arranhava a tudo e a todos até que a porte fosse aberta e ela pudesse esperar por mim, sentada à frente da porta do elevador, quando eu finalmente chegava no andar ela fazia a maior festa! Resultado acabei me apaixonando pela gatinha... Então pretinha passou a dormir no meu quarto, sua cesta foi colocada perto da porta ( ou ela ficava lá comigo ou não deixava ninguém dormir, tamanha era a miadeira..). Pois bem, uma noite graças a ela quase sofri um enfarto (isto é exagero é claro!), imagine que a danada esperava eu dormir e se aninhava sobre as minhas costas. No meio daquela noite acordei sentindo um peso enorme sobre meu corpo e me mexi, então vi um vulto negro enorme saltando em direção a porta. Eu gritei, a gata miou!! Todos no apartamento acordaram e correram para meu quarto..., depois do susto demos boas gargalhadas!. Enfim pretinha e eu ficamos amigas, convivemos por quase um ano, quando mudei para o nordeste. Foi difícil parir e deixá-la, té hoje sinto saudades daquela gatinha amável e dengosa.

 

Noite de inverno,

um vulto acorda a menina.

Gatinha em vigília.

 



Escrito por jidduks às 14h48
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Hg - Desde que você começou a escrever haicais, tua poesia como um todo passou por algum tipo de mudança?

AM - Minha poesia sempre foi concisa, nunca consegui escrever Odes, na verdade nem tentei! Não gosto de poemas longos. Sempre escrevi sobre a natureza, esta em si e o ser humano nela inserido.

Meu primeiro contato com a poesia minimalista foi com Leminski, depois veio Poetrix, que conheci por intermédio do Ricardo Mainieri e Paulo Camelo, escrevi diversos. Porém só bem mais tarde efetivamente me interessei pelo Haicai, quando percebi que esta poesia que nasce diretamente da experiência do poeta, através da observação da natureza e da vida diária, me emocionava. Gostei tanto que todo meu trabalho foi influenciado, passando a minha poesia a ficar mais enxuta.

 

HG - Que haicaistas você recomenda para os leitores de Haigatos? Fale um pouco sobre eles.

AM - Costumo ler Mattsuô Bashô, Teruko Oda, Nenpuku Sato, Paulo Franquetti, Débora Novaes de Castro, Tchello D’Barros, Lena jesus Ponte e claro os meus conterrâneos Helena Kolody, Paulo Leminski, Marília Kubota, Antonio Augisto de Assis, Raul Pugh, Sérgio Pichorim e  José Marins ( foi quem ensinou-me e incentivou a dar meus primeiros passos no Hacai). Creio piamente que todos estes autores devem ser lidos e conhecidos por todos. O melhor, não existe, tudo depende da forma como se observa o cristal.

 

Hg - Além de escrever Haigatos que outros temas te inspiraram a produzir Haicais?

AM - Preponderantemente a natureza: flora/fauna, mas também o clima e o homem – suas alegrias e/ou tragédias.

 

Borboleta azul voa

entre as quedas do Iguaçu,

Por um breve instante.

 

Quando o dia desponta

coberto por densa geada

pia no ninho o pardal.

 

No outono anoitece

em tons róseo azul-lilás.

Geada branda a vista.

 

No Ano Brasil-França

nada para se comemorar

tragédia no ar!

 

 

Hg - Conte um pouco da tua experiência com o Congresso Brasileiro de Poesia.

AM - Para mim foi um divisor de águas. Até a minha primeira participação no Congresso, não obstante tivesse feito parte de diversas Antologias Poéticas e tivesse diversas publicações na internet, quer em blogs, quer através de Grupos de Discussões, eu não via meu trabalho como produção poética. Foi a partir do Congresso Brasileiro de Poesia que passei a acreditar no meu trabalho literário. retornei no ano seguinte e nos que se seguiram, isto se deu indiscutivelmente em face a magnitude do evento. o contato direto com a comunidade e com o movimento literário e poético nacional e internacional, através dos projetos, Poetas nas Escolas, Poesia na Vidraça, dentre outros em dias de intensa celebração cultural, é muito mais do que um espetáculo, é vivência, troca de experiências, crescimento espiritual, pessoal e intelectual.

 

Na Serra gaúcha

escuta feliz o Poeta.

A criança traquina

 

Em Bento Gonçalves,

todos os anos em outubro

Poesia, decora a vidraça.

 

Gato-maracajá, espécie em extinção.

 

Hg - Como você vê hoje a presença da web na vida dos escritores?

AM - Acho que na web encontramos escrivinhadores e escritores que estão mais perto do que nunca das pessoas que querem ler. Portanto para todos escritores, escrivinhadores e leitores a  internet tornou-se um novo e surpreendente espaço literário, um importante instrumento de interatividade do autor com seu público.

É a grande oportunidade poara os novos escritores, sem espaço na mídia e editoras, pois não resta dúvida de que a web é importante instrumento de  divulgação e, repita-se de interatividade.  A internet é o grande laboratório da atualidade onde os feedbacks vêm na hora (não é necessário aguardar o leitor se convencer a procurar o livro, adquiri-lo, ler inteiro, para só depois, gostar ou não. E o autor ter ou não algum tipo de retorno). É sem dúvida, uma alternativa à mídia estabelecida. 

gato maracajá, espécie em extinção.

para conhecer o blog de Andréa Motta (clique aqui)

entrevistada por Jiddu Saldanha www.jiddusaldanha.com



Escrito por jidduks às 14h40
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Entrevista com Gustavo Felicíssimo - Itabuna / BA

 

 

 

 

 

 

Haigatos – Gustavo, a paixão por gatos é o foco deste blog, então, conte para nossos leitores, um pouco das tuas peripécias com os bichanos.

 

Gustavo Felicíssimo – Tive diversos gatos, mas o que mais me marcou, talvez por sua história trágica, foi o Jacaré. Ele era um gato sem raça definida e vivia no Pelourinho, das sobras de comida que os visitantes deixavam. Um dia, estava lá, em um dos bares do local, quando ele apareceu. Era bem pequenino, tinha de três para quatro meses, no máximo. Então, do nada, o danado pulou no meu colo. Dei-lhe um pedaço de algo que estava comendo e o coloquei no chão, mas ele não se afastou. Então disse à minha esposa que o levaria pra casa caso ele ainda estivesse ali quando fôssemos embora. Não deu outra.

Jacaré era muito malandro e logo se tornou o “cara” do pedaço. Conquistou a todos, principalmente meus sobrinhos. Quando cresceu ficou bastante forte e não demorou a demarcar seu terreno. Foi quando minhas noites se tornaram impossíveis, pois era uma gataria miando e brigando o tempo todo. Ao que me parece, Jacaré cobria a maioria das gatas do local.

Alguns vizinhos não suportaram a algazarra e tentaram matá-lo algumas vezes, até que um dia conseguiram, deram-lhe um bolinho de carne “temperado” com chumbinho, um produto tóxico proibido. Levei-o ao veterinário, mas não se pode dar jeito. O bichano morreu no meu colo. Até hoje me entristeço ao relembrar.

 

 

 

 

Hg – Como você vê a evolução humana no que tange ao respeito com os animais, você acha que estamos num bom caminho?

GF – De modo algum! O ser humano optou pela bestialidade. É constante a notícia de espécies se extinguindo, enquanto outras entram em processo de extinção. “Domesticamos bichos/ e agora cuidamos da gente assim como cuidamos dos bichos:/ deixamos que ambos remexam o lixo.” Isso está em um poema de nossa autoria chamado “Ode ao homem programado”. Esse poema traz uma terrível epígrafe de Manuel Bandeira: “O bicho era o homem”.

Mas vejamos como estão os nossos rios. Aqui mesmo onde moro, entre Itabuna e Ilhéus, na Bahia, um local de natureza exuberante, os dejetos produzidos por mais de um milhão de habitantes é jogado in natura no Rio Cachoeira. Os pescadores sofrem, pois quase não há mais peixe. Sensibilizado, acabei por criar uma série de haicais, denominados “Haicais do Rio Cachoeira”. Eis dois deles:

 

 

não morre de vez

porque é valente esse rio –

tinhoso e audaz.

 

 

se querem um rio

para chamá-lo de seu

que o venham salvar.

 

 

Pra piorar a situação, a população não colabora, pois mal educada não possui consciência ambiental, os ambientalistas não têm voz ativa e os políticos não se incomodam com a situação, tendo em vista que maquiar uma praça dá mais votos que recuperar um rio.

 

 



Escrito por jidduks às 17h06
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Aldemir Martins

Hg - Mas falemos de haicai: Você acha possível manter o foco no haicai tradicional, considerando a variedade de gêneros praticados no Brasil?

 

GF – Sim, sem dúvida, entretanto, para o leitor comum, o haicai com rima e mais próximo do senryu é muito convidativo. O Paulo Franchetti, ao comentar o haicai de Guilherme de Almeida, afirma que este parece fracassar por conta da inserção do título, pois ele muitas vezes é determinante para seu entendimento e nos faz “reencontrar os limites da nossa própria tradição”. Concordo plenamente com ele. De tudo que vi em haicai, o título me parece ser mesmo o único artifício inserido no ocidente que é condenável. Por outro lado, se queremos um haicai marcadamente brasileiro, precisamos escrever mais sobre temas como o sertão, o futebol, o carnaval, samba, são João, maracatu, etc.

Os mais tradicionalistas dizem ainda que Issa, Busson e Basho, condenariam hoje a metáfora e a aliteração. Quem pode garantir? Contudo, é evidente que há recursos dispensáveis, mas me parece que há um ganho considerável para quem sabe utilizá-los bem. Contrariando alguns, eu diria que o haicai é um só, assim como o soneto ou a redondilha é uma só. A questão escolástica apenas mostra como é rica e diversa a poesia em si.

 

 

Hg – O que você considera um bom haicai?

 

GF – Para um crítico honesto é impossível estabelecer o que é um bom haicai, pois são tantas as variantes. Cada um poderá estabelecer parâmetros de acordo com a estética que mais valoriza ou gosta, mas isso ainda é pouco, é preciso olhar o todo. Prefiro buscar perceber se o autor em questão, no conjunto de sua obra, demonstra possuir maior ou menor grau de consciência literária. Se ele executa bem aquilo a que se propõe e tem o que dizer, então, teremos um bom haicai.

Assim como há bons e maus poetas, há bons e maus críticos, mas estes jamais conseguirão grassar o todo. Fico com Shelley, para quem “os poetas são os autênticos juízes dos poetas dentro do tempo”.

 

Aldemir Martins

Hg – Na tua percepção, quem são hoje os nomes que merecem destaque como bons criadores de haicais?

GF – Não entendo porque muita gente se nega a responder diretamente esse tipo de pergunta. Além de poetas de gerações passadas, como Oldegar Franco Vieira e Abel Pereira, gosto muito de Anibal Beça. Aliás, fico muito feliz que um texto que escrevi sobre “Folhas da selva” tenha levado alguns leitores a buscarem o livro diretamente com o autor ou na internet. Dele, destaco o seguinte haicai:

 

Quando o gongo bate

é hora que aflora a espora

do galo em combate.

 

(Aníbal Beca)

 

Também gosto de Saulo Mendonça, um poeta paraibano de muito talento e discernimento lírico. Aliás, ele escreveu um “haigato” que eu gostaria de ter escrito:

 

Um gato dorme

sobre a balança:

sono pesado.

 

(Saulo Mendonça)

 

Saulo foi uma grande leitura que fiz neste ano de 2009. Também escrevi sobre sua poesia, o texto foi bastante publicado em sites especializados e publicações literárias. Ainda o José Marins e a Teruko Oda gozam da minha admiração. Na área ensaística é inegável a contribuição do Paulo Franchetti e do Carlos Verçosa para a firmação do haicai no Brasil.

 

 



Escrito por jidduks às 16h58
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Aldemir Martins

Hg – Kobaiashi Issa, o haicaísta japonês do século XVII, sabemos, era um adorador de animais, sendo, inclusive, comparado a São Francisco de Assis. Existe, na tua percepção, um haicai mais voltado para os animais totêmicos e menos para a fauna e flora?

 

GF – Castro Alves foi o poeta da liberdade, João Cabral foi o poeta das pedras, Vinícius, o poeta do amor. Você seria o poeta dos gatos, meu caro Jiddu. Existem livros com poemas versando sobre animais diversos, mas desconheço autor que, como você, tenha elegido um animal específico para tratá-lo de forma totêmica em sua poesia. Aliás, essa é uma bela questão para um estudo mais aprofundado.

 

Hg - Como uma pessoa residente na Bahia e tendo nascido em São Paulo, a mudança de estado reflete na mudança da tua forma de escrever, em que sentido isso se dá?

 

GF – Sou paulista, natural de Marília, mas quando vim morar na Bahia, primeiramente em Salvador, em 1993, eu ainda não era um escritor. Tal mágica começou a acontecer apenas no final dos anos 90 e se intensificou quando comecei a participar de oficinas literárias e travar conhecimento e conviver com outros escritores. Contrariando a Teruko Oda, o Mário de Andrade dizia que o poeta é um ser fatalizado. Ou seja, nasce-se poeta.

Tive sorte em poder desenvolver meu talento aqui no nordeste, os nordestinos sempre fizeram e ainda fazem a melhor poesia brasileira, pois não cederam facilmente aos apelos vanguardistas. Além disso, a cultura é impactante e influencia positivamente.

Aqui fundei, juntamente com outros poetas, o tablóide literário Sopa, do qual fui o editor. Tenho me dedicado a revalorizar a obra de poetas idos e a publicar os novos, também escrevo para jornais locais, estudo o haicai na Bahia e também a obra de autores grapiúnas (oriundos da região cacaueira da Bahia).

Como vê, minha vivência literária se deu toda na Bahia. Portanto, como escritor, sou baiano.

 

 

 

 

Aldemir Martins

 

 

Três haigatos de Gustavo Felicíssimo

 

gatos no telhado –

a noite será de brigas

e muita desordem.

 

ardendo em desejos

se inflama a gatinha em chamas –

ásperos gracejos.

 

caixa de papel –

brincam os seis filhotinhos

da gatinha persa.

 

 

Gustavo Felicíssimo é poeta, pesquisador e ensaísta. Natural de Marília, interior de São Paulo, está radicado na Bahia desde 1993. Em Itabuna, desde Janeiro de 2007. Estudou estética e criação literária com a mestra Maria da Conceição Paranhos. Fundou juntamente com outros escritores, em Salvador, o tablóide literário SOPA, do qual foi seu editor. Criou e apresentou o Sarau Lítero-Musical Soltando o Verbo, 2006, em Salvador, durante oito semanas consecutivas, no Restaurante Extudo, onde recebeu 16 escritores para falarem sobre suas obras e questões fundamentais ligadas à literatura. Atua como preparador de textos para editoras e poetas. Entregou organizado, pronto para publicação, os livros: “Firmino Rocha: poemas escolhidos e inéditos”, Via Litterarum, 2008, e “Plínio de Almeida: poesia reunida”, Editus, 2009. Está preparando a nova antologia de poetas grapiúnas e um estudo sobre o haicai na Bahia. Escreve regularmente para jornais baianos e para o Cronópios, maior site de literatura do Brasil, cujo endereço eletrônico é: www.cronopios.com.br. Manteve coluna semanal de crítica literária no Jornal Agora, Itabuna, durante os anos de 2007/2008. Edita o blog Sopa de Poesia: www.sopadepoesia.blogspot.com

 

 

Entrevistador: Jiddu Saldanha  jidduks@uol.com.br  www.jiddusaldanha.com

 



Escrito por jidduks às 16h51
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QUEM É Tchello d’Barros?


Sou escritor, artista visual e viajante. Por enquanto publiquei 5 livros de poemas, realizei cerca de 40 exposições, entre individuais e coletivas, e andei por uns 20 países. Eventualmente ministro oficinas literárias e cursos de desenho. No paralelo, como designer free-lancer atendo os segmentos de Publicidade, Moda e Dècor.

 

Tchello fotografado por Gian Gadotti
 
silêncio no bosque

o quê estão a sonhar

os gatos da Edith?

 

Nota: primeiro haigato de Tchello d’Barros, publicado em seu livro de haicais “Olho Zen” (Ed. Multi-prisma – Blumenau-SC – 2000 d. C.)

Trata-se de um pequeno horto florestal atrás da biblioteca pública em Blumenau, onde há alguns túmulos dos gatos da atriz blumenauense Edith Gaertner (1882 – 1967 d. C.), que fez carreira nos palcos da Alemanha. Edith tinha grande afeto pelos gatos. Ao morrerem, os felinos eram enterrados com direito a funeral e cortejo fúnebre. Estão enterrados ali os gatos: Pepito, Mirko, Bum, Peterle, Musch, Schnurr, Sittah, Putze e Mirl.

 

 

arte de T.d'B.

 

um gato gorducho

ignora o rato que passa

felino feliz


Haigatos – Qual a tua visão hoje a respeito dos mau-tratos com animais?

Tchello d'Barros.: Minha percepção é de que tem havido algumas conquistas em prol da proteção da fauna, apesar de nosso país abrigar um dos maiores tráficos de animais, onde muitos morrem no meio do processo todo. Recentemente proibiram animais nos circos, o que considero uma evolução real.

Certa vez na Espanha acabei assistindo uma das tradicionais touradas e saí de lá quase vomitando de pena daqueles Miúras. Me disseram que ainda mantém isso porque atrai turistas, gera emprego e renda, essas coisas. Em meu próprio Estado de origem, Santa Catarina, ainda não se coibiu totalmente uma manifestação que ocorre em algumas pequenas comunidades, a tal Farra-do-Boi. E ainda ocorrem de norte a sul, apesar de proibido, as chamadas Rinhas-de-Galo, inclusive o Duda Mendonça, marqueteiro de campanha do presidente Lula foi preso numa dessas rinhas. Apesar dos avanços, os fatos evidenciam que há muito ainda por ser feito. Pessoalmente fico revoltado, e muito triste, mas triste de verdade, quando passo por uma casa e vejo um pássaro numa gaiola. É uma das imagens mais tristes que existe. Me dói mesmo!

 

arte de T.d'B.

 

miados na rua

enfrenta um cachorro preto

o gato valente


Hg –  Que fatos curiosos você tem pra contar para nossos leitores, envolvendo a gataria?

T. d'B.: Acho que começou pela palavra, com a expressão Ein Katz! Pois minha avó materna, nascida na Alemanha, nunca falou muito bem o português e essa expressão ainda é comum entre os imigrantes e descendentes germânicos no Sul. A tradução seria “Um gato!”, mas quer dizer o equivalente à “Uma ova!” ou “Uma ova que vai!” Nas muitas casas em que morei – mais de dez cidades - sempre havia algum gato, geralmente era de minha irmã. Havia também algum cachorro sempre, geralmente de meu irmão, algum papagaio e outros pássaros canoros que meu pai criava, lembro ainda de um porquinho-da-índia e até um cavalo marchador, o Zaino. Mas, o Missian, por exemplo, era um bichano branco-amarelado dos mais folgados. Com seus olhinhos azuis, esperava minha irmã pegar no sono, subia na cama como quem nada queria e se aninhava no ombro dela, veja só. Uma grande gata branca, com uma manchinha cinzenta, certa vez deu à luz três filhotes, dentro da caixa de lenhas, sob o fogão. Outro que apareceu e ficou foi um gato peludão e agressivo, que os vizinhos diziam que era cruza com gato-do-mato. Esse nunca deixou muito que o tocassem e era do tipo pegador de ratos, atacava galinheiros, enfrentava cachorros, uma fera. Como eu desenhava desde criança, esses gatos, pelo fato de ficarem quietinhos, serviam de modelo para meus desenhos muitas vezes. Mas meu preferido ainda é o Garfield, pois até fiz várias estampas dele para uma empresa de Cama Mesa e Banho. Atualmente curto um casal de gatos, que vive pelos telhados ao redor da casa em que moro, aqui em Maceió. Ele, um gato grande, cinza-escuro, meio paradão... sempre na dele. Ela, cor caramelo e marrom, de olhos esverdeados, muito bonita. Ela brinca mais, salta nos muros, se espreguiça, mia, entra na casa e até provoca ele de vez em quando! Nas artes, sempre curti os gatos pintados pelo mestre Aldemir Martins. Na literatura, é inesquecível O Gato Preto, de Edgar Allan Poe. E no cinema, é antológica a cena com o gato em Ghost, Do Outro Lado Da Vida. Há também um gato numa das cenas mais divertidas da história do cinema, a cena final do filme Homens de Preto, onde finalmente ficamos sabendo o que é o universo!



Escrito por jidduks às 23h28
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Entrevista com Tchello d'Barros

Continuação parte 2... 

 

arte de T.d'B.

 

 

uma gata preta

namora um gato branco

numa tarde cinza

 
Hg – Dizem que os gatos não estão nem aí para nós que os amamos tanto, você concorda com essa afirmação?

T. d'B.: Essa frase deve ter sido dita por algum cachorro ciumento! Ou alguém que estava tendo um dia de cão! Bem, vou fazer de conta que entendo do que estou falando, respondendo o seguinte: ora, nossa relação com os bichanos vem de milênios e eles estão presentes em quase todas as culturas. O fato é que nossos amiguinhos felinos foram se achegando e criaram essa relação afetiva, mas de contida cumplicidade. E já pensou que sem graça seria se eles chegassem miando alto, babando e abanando o rabo! A questão é que devemos respeitar sua natureza de animal territorial, devemos aprender com sua postura reservada, com sua atitude discreta e sua indefectível elegância. E são sim muito afetivos. A gatona branca, acima citada, adotou nossa família quando moramos em Celso Ramos, quase na fronteira do Rio Grande do Sul. Naqueles invernos com frio abaixo de zero, costumávamos tomar chimarrão, junto ao fogão-à-lenha, e ela vinha se recostar em nosso pés, como que pedindo um carinho, ou, sem a menor cerimônia, pulava no colo e por ali ficava, numa boa e adorava uns afagos. E exatamente porque não tem nada a ver com a pergunta, acabo de lembrar agora do Romero, um músico argentino e muçulmano que vive em Blumenau, e criava no sótão do estúdio mais de trinta gatos. Uma beleza aquela “gatalhada” toda! E em certas literaturas esotéricas, dizem que os gatos são o estágio mais alto na evolução animal e o gato siamês, o mais evoluído de todos.

 

 

 

arte de T.d'B.

 

dois gatos pintados 

desafinam violinos

concerto noturno


Hg – Aproveitando para falar de gatos e haicais, fale um pouco da tua relação com essa forma de poesia.

T. d'B.: Meu contato com o haicai foi quase inevitável, pois morei muitos anos na germânica cidade catarinense de Blumenau, uma cidade infestada de haicaístas, por incrível que pareça. Alguns dos meus prediletos são Nassau de Souza, Teresinha Manczak, Suzana Mafra, Margit Didjurgeit, Edith Kormann, Luiz Eduardo Caminha e Isnelda Weise, que é também dona da belíssima gata Sarah. Mas o destaque mesmo fica por conta de Martinho Bruning (em memória), com mais de dez livros publicados: extraordinário haicaísta, filósofo zen, foi amigo de Mário Quintana, mas hoje está injustamente esquecido e ainda com vasta produção inédita. Além disso, quando estudei as formas-fixas de poemas (isso foi no milênio passado, viu!, mas bem depois de Bashô!), tive que estudar também o haicai, pois ministrava oficinas literárias. Daí a praticá-lo foi um pulo, o pulo do gato, ou o salto de uma rã... Em 2.000 d. C. publiquei Olho Zen, meu livro de haicais. Minha opção foi e continua sendo pelo haicai tradicional, com direito a kigô e tudo mais, pois tenho origens rurais, digamos assim, vim de Brunópolis, planalto catarinense, terra da neve, e na infância principalmente, tive muito contato com a terra, a fauna e a flora, e essas vivências telúricas de alguma forma aparecem em meus haicais.

Concluo essa resposta com uma imagem para haicai; haicai que não escrevi: “indo para a escola numa manhã nívea, com neve quase na altura dos joelhos, a rua toda branca, encontro um gato branco que ficou me fitando, fitando” ...

 

 

arte de T.d'B.

 

neve na cidade

miava o gato branco

e ninguém o via


Hg – Na tua percepção, quem são os haicaístas que você aprecia e recomenda para os leitores do blog Haigatos?

T. d'B.: Matusuô Bashô, Kobaiashi Issa e Yosa Buson são fundamentais!

Digo isso pois releio esses caras e sempre aprendo com eles. Bashô sempre me mostra a essência do haicai. Issa me ensina que a emoção pode e deve estar nesses versos e Buson nos avisa da possibilidade de brincarmos com a linguagem, uma coisa, aliás, bem brasileira. E gosto da turma de Curitiba, cidade em que morei também: Helena Kolody, Paulo Leminski, Alice Ruiz, Andréa Motta, Marilda Confortim e até um pseudo-curitiboca que morou por lá e hoje tem um blog de haigatos... Mas leio também Teruko Oda, Masuda Goga, Paulo Franchetti, Aníbal Beça, Nenpuku Sato, Leila Míccolis, Benedita Azevedo, Débora Novaes de Castro, Ricardo Silvestrim e aquela galera dos grêmios de haicais em São Paulo. Depois tem toda uma turma que a gente vai trombando nos blogs e comunidades da vida. A maioria muito fraquinhos ainda, mas estão praticando e desenvolvendo os haicais urbanos, com outras temáticas e inovações...

Nessas leituras vamos encontrando pepitas inesperadas, como o haicai de Mário Quintana, sobre um grilo. Um haicai de Octávio Paz, sobre um peixe, para mim, o mais belo haicai já escrito. E, surpresa das surpresas, lendo a obra completa de meu autor preferido, Jorge Luís Borges, dou de cara com uma série de haicais dele. Mas como o haicai tem dezessete sílabas, Borges, que era chegado em matemáticas e simetrias, escreveu então exatos dezessete haicais! Menciono “esses caras” porque o haicai algumas vezes sofreu algumas invencionices aqui nos tristes trópicos, já tendo chegado com título e rima, pelas mãos do modernista Guilherme de Almeida. O Leminski também cometeu uns rimados, mania que ainda encontra adeptos. E há o estranho caso da transcriação concretista que o Haroldo de Campos fez do haicai da rã, o mais famoso dos haicais.

Penso que isso tudo tem a ver com nossa vocação antropofágica, assimilamos, devoramos, o que é de fora e reapresentamos de uma forma mais interessante. Como as pizzas brasileiras, que dão um show nas italianas. Agora, esse papo de recomendar autores não é comigo não, recomendo logo então que leiam o ótimo livro sobre haicais escrito pela Olga Savary ou façam uma oficina com a Alice Ruiz. Não recomendo autores especificamente porque acho que essas coisas são sempre uma descoberta pessoal, prefiro apenas desejar que cada um tenha boas surpresas pelo caminho, até porque era isso um pouco do que Bashô buscava em suas peregrinações. 



Escrito por jidduks às 23h19
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Entrevista com Tchello d'Barros

Continuação parte 3...

 

 

arte de T.d'B.

 

na caixa-de-lenhas 

a gata branca deu cria

gatinhos em cores


Hg – Nós percebemos em você, um verdadeiro mestre da concisão e da limpeza estética. Você levou isso ao haicai ou o haicai é que te deu essa percepção?

T. d'B.: Se essa concisão toda fosse mesmo verdade, não teríamos aqui essas respostas tão prolixas, hehe! Mas para os que aturam minhas tagarelices verborrágicas e acompanharam até aqui, posso dizer que de fato essas são características que algumas pessoas identificam em minha obra visual e também na produção literária. Vez em quando me dizem ou escrevem coisas assim. O fato é que quando o haicai apareceu na minha vida, eu já vinha desenvolvido uma linguagem em desenho, pintura e um pouco de fotografia experimental, sendo que essa concisão, a idéia de síntese, ou o rigor, como prefiro dizer, já apareciam nesses trabalhos, não como premissa, mas como resultado. Talvez por isso a identificação com esse poemeto nipônico tenha sido imediata. Foi amor ao primeiro verso com essa “japinha”!

Nessas questões de concisão, também abordadas por vários grandes escritores, penso que há um conceito que serve para todas as expressões estéticas: o ideal não é o barroquismo, ou o minimalismo, nem dizer o máximo com o mínimo, digo que o ideal é apenas dizer o necessário. Fácil de dizer, difícil de fazer, como se vê nessas respostas! Aliás, equilíbrio, em suas várias possibilidades, é outra lição que a gente aprende com nossos amiguinhos felinos. 

 

 

arte de T.d'B.

 

numa colcha azul

fecham-se uns olhinhos verdes

gatinho amarelo


Hg – Como você funde na tua linguagem estética, tantas técnicas variadas em uma produção que parece não linear. Isso é inquietação?

T. d'B.: De fato essa produção variada não parece linear e a boa notícia é que de fato nunca pretendeu ser e espero que nunca seja. Antes eu até tinha uma desculpinha meio esfarrapada: o fato de ter começado como desenhista têxtil e ilustrador em agências de publicidade. Essas atividades pedem que nos tornemos versáteis. Meus trabalhos no mundo da moda sempre exigiram polivalência. Embora na produção artística, por ser mais lúdica e não compromissada com resultados comerciais, nada me impede de variar, de desafiar meus próprios limites, que são muitos. A gente sempre quer saber o que há por detrás do horizonte.

No meu caso, sempre trabalho muito o conceito de alguma proposta estética e depois é que parto para a técnica, o suporte, a forma e o meio. E nessa parte procuro estudar e aprender ao máximo, para que a criação em si, seja visual ou literária, encontre o veículo adequado para ser apresentado ao público. Acho que é por isso que os trabalhos em geral acabam sendo seriados. Quando estudei labirintos, não fiz apenas um, fiz trinta. Quando desenvolvi meu primeiro ideograma, acabei fazendo mais de cinquenta. Mesmo assim, há um fio condutor que liga todos os trabalhos, há uma identidade que transcende as técnicas e linguagens e amarra toda essa produção. Se não for essa inquietação, mencionada na pergunta, talvez seja falta de acomodação. De qualquer forma acho que tem a ver com esse nosso tempo de tantas pluralidades.

Se a gente não pode ter sete vidas, nada impede de tentarmos diversificar a única que temos. Ops, acho que vi um gatinho...

  

Clique na imagem para entrar

no site de Tchello d’Barros

 

Entrevista feita por Jiddu Saldanha jidduks@uol.com.br    www.jiddusaldanha.com



Escrito por jidduks às 23h00
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Haigatos, junho de 2009

 

Clique na imagem e veja filme com o Flechinha!

Noite alongada
Perambulo pela casa
e o gato me segue.


(Guin Ga)

 

gata lambe e lambe
sua ninhada colorida
menino vigia

(josé marins)

 

Gato enamorado -
Miados maliciosos
Na noite gelada.

(Slvio Gargano Junior)


Todo encolhidinho
sobre o chinelo esquecido -
Filhote de gato.


(Iraí Verdan)

Gato em namoro
Faz amor sobre o telhado
Ai, que alarido!


(Benedita Azevedo)


Unhas e pulgas
Correm no pêlo da gata
Silêncio na relva


(Nelson Savioli)

lua cheia -
na poltrona preferida
o gato ressona

(Hyô Kô)

Pé ante pé no muro
passa um gato no escuro
- quanta liberdade

(Marba Furtado)



Escrito por jidduks às 10h42
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ENTREVISTA COM CHRIS HERRMANN

 

 

Nasci e cresci no Rio de Janeiro. Estudei Literatura na UFRJ, Música (Piano e Teoria Musical) no CBM e, parcialmente, Teologia e Filosofia na FACEN. Fiz outros cursos de Marketing e Administração Básica. Trabalhei muitos anos no Rio como Secretária Executiva Bilíngue e Tradutora. Mas, desde cedo, foi a música e a poesia que me fizeram viajar, olhar, ouvir, aprender, sentir e aprender a sentir. Com certeza, uma experiência para a vida toda. Deixei o Brasil em 1996 e, desde então, vivo na Alemanha com minha família. Tenho dois filhos lindos e saudáveis que são minha fonte inesgotável de inspiração. Venho trabalhando com traduções e Web-Design desde que cheguei por aqui e me dedico à Literatura com paixão. Escrevo para a coluna "Orkultural” de Blocos Online, criei e mantenho comunidades virtuais com teor cultural, participo de movimentos poéticos, organizei antologias de poesia em parceria com o Congresso Brasileiro de Poesia em 2006 e 2007 e tenho trabalhos meus publicados no Brasil, EUA e Espanha.

 

Silencia o Ipê

a alegoria das cores

plumando a paisagem.

 
HAIGATOS - Todo mundo tem uma história com gatos, gostando ou não. Qual é a sua história?

 

CHRIS HERRMANN - Eu tive muitos gatos (quase tantos quanto irmãos, rsrs) quando era criança. Os dois últimos, Robin e Tommy eram siameses. Lindos e peraltas, como devem ser os gatos! Mas a história inesquecível foi com o Robin, quando fui levá-lo à primeira vez ao veterinário. Eu achei que seria muito simples porque dava para ir á pé (imagine!) e levei-o „no colo“ mesmo, porque ele era sempre tão bonziiiinho comigo... eu quase morri de nervoso naquele dia!! Passei a maior parte do tempo a caminho da clínica procurando o Robin que escapolia das minhas mãos. Os vizinhos se dividiam entre rir e me ajudar a procurá-lo.

 

Gato no espelho:
seu verdadeiro eu-felino
está de qual lado?

 

Os olhos do gato
hipnotizam a paisagem
até desbotá-la.

 

Enamoragato
- destilado enluarado -
céu embriagata.

 

Vem a gatania
soprando miados dóceis
: felina anarquia.


HG – Aqui no haigatos, amamos os cães também, pensamos e fazer um blog só pra eles, mas enquanto o blog não chega. Conte pra nós alguma história sua com cachorros.

 


Gravura de Manoela Afonso

 

CH - Eu fui "mãe" do Peter. Um pequinês branquinho, número zero, com um olho azul e outro preto. Aliás, minhas irmãs também se achavam mães. Meu filho não tinha tias, coitadinho... o Peter era muito querido e amado por todos da família e amigos, e chamava muito atenção quando o levávamos para passear. Podiam dizer que era  „cachorrinho de madame” que não nos atingia. Éramos crianças e crianças não têm preconceito. Curti muito esse cãozinho. Foram muitas histórias engraçadas, mas a mais marcante com ele foi triste, porque ele foi passar uma temporada na casa de uma tia nossa e desapareceu.  Fiquei muito, muito triste na época. Porém, como as perdas também nos ensinam muito, compreendi que aquele amor puro e inocente duraria para sempre, mesmo que não pudesse mais vê-lo nem tocá-lo.

HG – O que mais te inspira a escrever haicais?

 

CH - Tudo ao meu redor pode me inspirar. Porém, acredito que crianças, seguidos de animais e plantas me inspiram com mais frequência. São vidas que carregam em sua simplicidade uma beleza exuberante. O haicai abaixo sobre o coquinho, por exemplo, lembra uma brincadeira de criança que traz consigo um aprendizado para ela própria e para quem a observa.

 

O coquinho cai.
Cai sorrindo ao chão duro
e haicai maduro.

Hg – Falando de “outros gatos” – você tem filhos e os ama muito - eles servem de inspiração para seus haicais? Em que medida? 

CH - Meus filhos me inspiram muito a escrever poemas. E, mais ainda, haicais. A explicação está na própria essência do haicai que nasce da magia do momento e as crianças são mestras em nos passar isso com doçura e generosidade. E, por isso mesmo, elas são minha maior fonte de inspiração e aprendizado.

 

A criança dança,
rodopiando a lembrança
à margem do tempo.


 


Hg - Como tem sido sua experiência de vida na Alemanha, trabalho, amigos, poesia, família...

 

CH - Como toda experiência proveitosa, ela tem vários lados. Nem tudo são flores quando estamos fora do nosso país. Nem tudo é glamour. Passei fases duras de adaptação depois que cheguei aqui, desde o clima até os costumes dessa gente tão diferente da nossa. As saudades do Brasil apertam o peito. Mas o tempo, como sempre, é um excelente aliado para nos trazer força, respostas, além de ajudar a mudar nossos olhares. A poesia também tem sido imprescindível na minha vida, desde então. Conheci pessoas muito especiais na Alemanha, fiz maravilhosas amizades. tanto de brasileiros como de alemães. Trabalhei muito no meu home-office com traduções e continuo trabalhando com web-design e design gráfico pela facilidade, em primeiro lugar, de poder cuidar da casa e de meus filhos. Depois, pela própria dificuldade de disputar o mercado de trabalho com os alemães. Ainda assim, tive umas poucas e interessantes experiências trabalhando fora. A última, foi ano passado para uma empresa holandesa aqui na minha cidade. Com meus filhos, só tenho tido alegrias. Minha filha parece uma alemãzinha e o meu filho mais novo, um carioca. Eles são muito carinhosos. No amor, tive desencontros e, há cerca de 1 ano e pouco, encontrei alguém que está me mostrando que o amor não é apenas uma ilusão ou uma palavra batida, mas algo possível e real.

Hg – Quem são os autores de haicais que você gosta de ler?

 

CH - Há muitos que me chamam à atenção e me emocionam, sejam pela doçura ou irreverência. Cito alguns que costumo ler com mais frequência (em ordem alfabética): Ademir Antonio Bacca, Alice Ruiz, Andréa Motta, Aníbal Beça, Basho, Jiddu Saldanha, Leila Míccolis, Michèle Sato , Paulo Franchetti, Paulo Leminski e Solange Firmino.

Hg – Fale um pouco do seu novo livro.

 

CH - “Voos de Borboleta“ é minha primeira coletânea de haicais que está a caminho da publicação. São 178 haicais em português, porém com um capítulo inteiro em alemão (seguido de versão em português) e uns poucos em esperanto, italiano e inglês. Já foi entregue à editora. Mas só divulgarei quando estiver pronto para a venda. Posso adiantar que ele é dividido por temas (tem até haigatos!) e cada tema se distingue por um „tipo“ ou „caminho“ de voo da borboleta. A revisão foi feita por Hugo Pontes. O prefácio é da Leila Míccolis. Há comentários de Hugo Pontes, Antonio Mariano Lima, Edith Janete Schaefer e Pedro Lyra.

 

A farfalha azul
toca no céu do seu ser
: Borboleta blues

 

 

Clique na imagem para navegar no

site de Chris Herrmann 

 

Entrevistada por Jiddu Saldanha -  jidduks@uol.com.br  www.jiddusaldanha.com  



Escrito por jidduks às 12h48
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ENTREVISTA COM MICHÈLE SATO

 

 

Michèle curtindo a Chapada dos Guimarães, fotografada por Izan Petterle

 

 

 

Quem é você, Michèle Sato?

 

Sou paulistana, da gema do Butantã, onde nasci, cresci e aprendi a sonhar. De giro no mundo, desci pra Cuiabá, de onde os pés enraizaram e criaram frutos. Queria ser chão para que as árvores crescessem em mim! Casada, com 2 filhos mestiços [os mais lindos do mundo], sou professora e pesquisadora de educação ambiental na Universidade Federal de Mato Grosso [UFMT], mas também sou colaboradora dos programas de pós-graduação das universidades de São Carlos [UFSCar, SP], Rio Grande [FURG, RS] e também na Espanha, onde deliro em castelos célticos.

 

 

quimera de rua

travessura e tino

brinca o felino

 

(Michèle Sato)

 

Haigatos - Já soube que você tem 2 gatos, certamente os observa muito. Fale um pouco deles.

 

Michèle Sato - Luce Irigaray foi jogada aqui em casa quando muito pequena. Seu nome é em homenagem à grande filósofa feminista e ela, como boa representante da classe dos mamíferos, queria mamar... Vai parecer engraçado, mas ela mama na minha orelha, até os dias atuais [ela tem 5 anos]. Kit é o seu filho, de pelos cinzas e bastante dengoso. Ele não mama na minha orelha, mas come meus vestidos! São dois gatos que encantam minha casa, a cada hora vou descobrindo seus esconderijos e deliciando nos miados destes felinos.

  

Hgs – Na tua percepção, em que a nossa sociedade ocidental evoluiu em relação ao trato com animais domésticos?

 

MS - acho que qualquer sociedade ainda está muito aquém do ideal. Mas na Suíça, os animais da fazenda têm férias! A matéria que eu li dizia que os fazendeiros pagam multa se não cuidarem bem destes animais e, em muitos países, é proibido vender animais. Acho bonito isso, deve ser crime vender VIDA mesmo! É triste ver a venda de animais aqui no Brasil, em casas de pets... Ainda temos muito que aprender.

  

casa vazia

pulos em móveis

miados saudosos

 

(Michèle Sato)

 

Hgs –  Você é professora de filosofia e ecologia, cuida de filhos e tem gatos. Qual é o tempo que te sobra pra dedicar-se a produzir sua obra poética e outros pensares?

 

MS -  nem sei como consigo fazer tantas coisas e no meio de tudo ainda responder questões de uma entrevista... heheheh.... Bem, Jiddu, eu creio que amo o que faço e trabalho poeticamente. Minha área de atuação é na estética, ou filosofia da arte e do ambiente, o que casa os enredos, permitindo que a paixão não seja isolada do compromisso e possibilitando que a gente consiga poetar até no trabalho...

 

Luce Irigarai - nome inspirado na grande filósofa feminista

 

Hgs – Falando de “outros gatos” - os teus alunos -  Certamente, como alguém que ama o que faz você deve construir um ótimo relacionamento com teus alunos, você se sente recompensada? Como é ser professora acadêmica na era do pós-tudo?

 

MS - um gigante desafio, porque a academia é muito tradicional ainda, engessada em seus princípios e pousando ser a dona da verdade. O grande desafio é atuar dentro dela, comendo as neuroses pela beira e tendo a coragem de transformá-la. O projeto de humanizar o conhecimento talvez seja o segredo do bom relacionamento com os estudantes, desde que abro diálogos sensíveis e os acolho como aliados desta luta, ao invés de infernizar a vida deles por meio do controle de notas ou hierarquias do poder. É muito gratificante ter bons estudantes, dialogar com eles e poder ensinar e aprender na dialética do conhecimento.

 

meu gato cinza

fingiu que cai

só pra rimar meu haikai

 

(Michèle Sato)

 

Hgs -  Michèle, você é filha de pais nascidos no Japão, escreve haicais, é brasileiríssima, gostaria que você contasse para nossos leitores, como é, carregar na alma forças culturais tão distintas.

 

MS -  Sou uma brasileira que luta pela construção deste país, que morou muito tempo fora do Brasil e tive herança zen budista em função de meus pais japoneses, ambos importados. Deles, creio que a disciplina é uma marca cultural muito forte em minha vida, principalmente o exercício de agradecer.  Mas diferentemente da maioria dos descendentes nissei, eu sou muito falante, despojada, adoro brincadeiras e socialmente muito divertida. É um perfil brasileiro, mas que contagiou meu pai e que me influenciou muito, porque ele foi um grande herói na minha vida. Para ele, o melhor lugar do mundo chamava-se Brasil. Concordo com ele, e por isso, canalizo o seu legado japonês à construção da cidadania brasileira.

 

 Kit - "devorador" de vestidos

  

 

Hgs – Como foi que você começou a escrever haicais?

 

MS -  por intermédio de uma pessoa genial, a quem tenho gigante admiração. Ele foi um mestre [e continua sendo], e me ensinou as primeiras dicas para se escrever haikai. Achei difícil no começo, mas depois o grande mestre já via sua discípula exercendo a atividade... o nome dele? JIDDU SALDANHA!

 

Hgs – Saindo um pouco do haicai, quem são os poetas que incendeiam o coração e tocam tua alma?

 

MS -  adoro a literatura surrealista, e por isso, sou movida pelas palavras eróticas ou desconexas, pela gramática inventada ou daquelas expressões que enlouquecem os verbos. Adoro Manoel de Barros! Mas também gosto de Orides Fontela, Floriano Martins e Oswald de Andrade, entre outros bons nomes brasileiros. Adoro os internacionais, Charles Baudelaire, Paul Valèry, Arthur Rimbaud ou Octavio Paz, entre muitos outros. Mas quero homenagear o Jiddu hoje, com 3 poemetos curtos, sob a poética maneira de dizer: obrigada pela entrevista, querido amigo!

 

clique na figura para entrar no blog de Michèle Sato

 

entrevistada por Jiddu Saldanha - jidduks@uol.com.br  22 - 26483763    21 - 92485170



Escrito por jidduks às 16h29
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 DOIS HAIGATOS DE YUMI  YAMAMOTO

 

aquarela/nanguim de Jiddu Saldanha - 2006

 

 

Macio no toque

Mas duro de roer

Faz gato e sapato

 

 

*

 

Rapel na cortina

Ataque surpresa

Tática felina

 

 



Escrito por jidduks às 00h43
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