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HAIGATOS


Entrevista com Gustavo Felicíssimo - Itabuna / BA

 

 

 

 

 

 

Haigatos – Gustavo, a paixão por gatos é o foco deste blog, então, conte para nossos leitores, um pouco das tuas peripécias com os bichanos.

 

Gustavo Felicíssimo – Tive diversos gatos, mas o que mais me marcou, talvez por sua história trágica, foi o Jacaré. Ele era um gato sem raça definida e vivia no Pelourinho, das sobras de comida que os visitantes deixavam. Um dia, estava lá, em um dos bares do local, quando ele apareceu. Era bem pequenino, tinha de três para quatro meses, no máximo. Então, do nada, o danado pulou no meu colo. Dei-lhe um pedaço de algo que estava comendo e o coloquei no chão, mas ele não se afastou. Então disse à minha esposa que o levaria pra casa caso ele ainda estivesse ali quando fôssemos embora. Não deu outra.

Jacaré era muito malandro e logo se tornou o “cara” do pedaço. Conquistou a todos, principalmente meus sobrinhos. Quando cresceu ficou bastante forte e não demorou a demarcar seu terreno. Foi quando minhas noites se tornaram impossíveis, pois era uma gataria miando e brigando o tempo todo. Ao que me parece, Jacaré cobria a maioria das gatas do local.

Alguns vizinhos não suportaram a algazarra e tentaram matá-lo algumas vezes, até que um dia conseguiram, deram-lhe um bolinho de carne “temperado” com chumbinho, um produto tóxico proibido. Levei-o ao veterinário, mas não se pode dar jeito. O bichano morreu no meu colo. Até hoje me entristeço ao relembrar.

 

 

 

 

Hg – Como você vê a evolução humana no que tange ao respeito com os animais, você acha que estamos num bom caminho?

GF – De modo algum! O ser humano optou pela bestialidade. É constante a notícia de espécies se extinguindo, enquanto outras entram em processo de extinção. “Domesticamos bichos/ e agora cuidamos da gente assim como cuidamos dos bichos:/ deixamos que ambos remexam o lixo.” Isso está em um poema de nossa autoria chamado “Ode ao homem programado”. Esse poema traz uma terrível epígrafe de Manuel Bandeira: “O bicho era o homem”.

Mas vejamos como estão os nossos rios. Aqui mesmo onde moro, entre Itabuna e Ilhéus, na Bahia, um local de natureza exuberante, os dejetos produzidos por mais de um milhão de habitantes é jogado in natura no Rio Cachoeira. Os pescadores sofrem, pois quase não há mais peixe. Sensibilizado, acabei por criar uma série de haicais, denominados “Haicais do Rio Cachoeira”. Eis dois deles:

 

 

não morre de vez

porque é valente esse rio –

tinhoso e audaz.

 

 

se querem um rio

para chamá-lo de seu

que o venham salvar.

 

 

Pra piorar a situação, a população não colabora, pois mal educada não possui consciência ambiental, os ambientalistas não têm voz ativa e os políticos não se incomodam com a situação, tendo em vista que maquiar uma praça dá mais votos que recuperar um rio.

 

 



Escrito por jidduks às 17h06
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Aldemir Martins

Hg - Mas falemos de haicai: Você acha possível manter o foco no haicai tradicional, considerando a variedade de gêneros praticados no Brasil?

 

GF – Sim, sem dúvida, entretanto, para o leitor comum, o haicai com rima e mais próximo do senryu é muito convidativo. O Paulo Franchetti, ao comentar o haicai de Guilherme de Almeida, afirma que este parece fracassar por conta da inserção do título, pois ele muitas vezes é determinante para seu entendimento e nos faz “reencontrar os limites da nossa própria tradição”. Concordo plenamente com ele. De tudo que vi em haicai, o título me parece ser mesmo o único artifício inserido no ocidente que é condenável. Por outro lado, se queremos um haicai marcadamente brasileiro, precisamos escrever mais sobre temas como o sertão, o futebol, o carnaval, samba, são João, maracatu, etc.

Os mais tradicionalistas dizem ainda que Issa, Busson e Basho, condenariam hoje a metáfora e a aliteração. Quem pode garantir? Contudo, é evidente que há recursos dispensáveis, mas me parece que há um ganho considerável para quem sabe utilizá-los bem. Contrariando alguns, eu diria que o haicai é um só, assim como o soneto ou a redondilha é uma só. A questão escolástica apenas mostra como é rica e diversa a poesia em si.

 

 

Hg – O que você considera um bom haicai?

 

GF – Para um crítico honesto é impossível estabelecer o que é um bom haicai, pois são tantas as variantes. Cada um poderá estabelecer parâmetros de acordo com a estética que mais valoriza ou gosta, mas isso ainda é pouco, é preciso olhar o todo. Prefiro buscar perceber se o autor em questão, no conjunto de sua obra, demonstra possuir maior ou menor grau de consciência literária. Se ele executa bem aquilo a que se propõe e tem o que dizer, então, teremos um bom haicai.

Assim como há bons e maus poetas, há bons e maus críticos, mas estes jamais conseguirão grassar o todo. Fico com Shelley, para quem “os poetas são os autênticos juízes dos poetas dentro do tempo”.

 

Aldemir Martins

Hg – Na tua percepção, quem são hoje os nomes que merecem destaque como bons criadores de haicais?

GF – Não entendo porque muita gente se nega a responder diretamente esse tipo de pergunta. Além de poetas de gerações passadas, como Oldegar Franco Vieira e Abel Pereira, gosto muito de Anibal Beça. Aliás, fico muito feliz que um texto que escrevi sobre “Folhas da selva” tenha levado alguns leitores a buscarem o livro diretamente com o autor ou na internet. Dele, destaco o seguinte haicai:

 

Quando o gongo bate

é hora que aflora a espora

do galo em combate.

 

(Aníbal Beca)

 

Também gosto de Saulo Mendonça, um poeta paraibano de muito talento e discernimento lírico. Aliás, ele escreveu um “haigato” que eu gostaria de ter escrito:

 

Um gato dorme

sobre a balança:

sono pesado.

 

(Saulo Mendonça)

 

Saulo foi uma grande leitura que fiz neste ano de 2009. Também escrevi sobre sua poesia, o texto foi bastante publicado em sites especializados e publicações literárias. Ainda o José Marins e a Teruko Oda gozam da minha admiração. Na área ensaística é inegável a contribuição do Paulo Franchetti e do Carlos Verçosa para a firmação do haicai no Brasil.

 

 



Escrito por jidduks às 16h58
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Aldemir Martins

Hg – Kobaiashi Issa, o haicaísta japonês do século XVII, sabemos, era um adorador de animais, sendo, inclusive, comparado a São Francisco de Assis. Existe, na tua percepção, um haicai mais voltado para os animais totêmicos e menos para a fauna e flora?

 

GF – Castro Alves foi o poeta da liberdade, João Cabral foi o poeta das pedras, Vinícius, o poeta do amor. Você seria o poeta dos gatos, meu caro Jiddu. Existem livros com poemas versando sobre animais diversos, mas desconheço autor que, como você, tenha elegido um animal específico para tratá-lo de forma totêmica em sua poesia. Aliás, essa é uma bela questão para um estudo mais aprofundado.

 

Hg - Como uma pessoa residente na Bahia e tendo nascido em São Paulo, a mudança de estado reflete na mudança da tua forma de escrever, em que sentido isso se dá?

 

GF – Sou paulista, natural de Marília, mas quando vim morar na Bahia, primeiramente em Salvador, em 1993, eu ainda não era um escritor. Tal mágica começou a acontecer apenas no final dos anos 90 e se intensificou quando comecei a participar de oficinas literárias e travar conhecimento e conviver com outros escritores. Contrariando a Teruko Oda, o Mário de Andrade dizia que o poeta é um ser fatalizado. Ou seja, nasce-se poeta.

Tive sorte em poder desenvolver meu talento aqui no nordeste, os nordestinos sempre fizeram e ainda fazem a melhor poesia brasileira, pois não cederam facilmente aos apelos vanguardistas. Além disso, a cultura é impactante e influencia positivamente.

Aqui fundei, juntamente com outros poetas, o tablóide literário Sopa, do qual fui o editor. Tenho me dedicado a revalorizar a obra de poetas idos e a publicar os novos, também escrevo para jornais locais, estudo o haicai na Bahia e também a obra de autores grapiúnas (oriundos da região cacaueira da Bahia).

Como vê, minha vivência literária se deu toda na Bahia. Portanto, como escritor, sou baiano.

 

 

 

 

Aldemir Martins

 

 

Três haigatos de Gustavo Felicíssimo

 

gatos no telhado –

a noite será de brigas

e muita desordem.

 

ardendo em desejos

se inflama a gatinha em chamas –

ásperos gracejos.

 

caixa de papel –

brincam os seis filhotinhos

da gatinha persa.

 

 

Gustavo Felicíssimo é poeta, pesquisador e ensaísta. Natural de Marília, interior de São Paulo, está radicado na Bahia desde 1993. Em Itabuna, desde Janeiro de 2007. Estudou estética e criação literária com a mestra Maria da Conceição Paranhos. Fundou juntamente com outros escritores, em Salvador, o tablóide literário SOPA, do qual foi seu editor. Criou e apresentou o Sarau Lítero-Musical Soltando o Verbo, 2006, em Salvador, durante oito semanas consecutivas, no Restaurante Extudo, onde recebeu 16 escritores para falarem sobre suas obras e questões fundamentais ligadas à literatura. Atua como preparador de textos para editoras e poetas. Entregou organizado, pronto para publicação, os livros: “Firmino Rocha: poemas escolhidos e inéditos”, Via Litterarum, 2008, e “Plínio de Almeida: poesia reunida”, Editus, 2009. Está preparando a nova antologia de poetas grapiúnas e um estudo sobre o haicai na Bahia. Escreve regularmente para jornais baianos e para o Cronópios, maior site de literatura do Brasil, cujo endereço eletrônico é: www.cronopios.com.br. Manteve coluna semanal de crítica literária no Jornal Agora, Itabuna, durante os anos de 2007/2008. Edita o blog Sopa de Poesia: www.sopadepoesia.blogspot.com

 

 

Entrevistador: Jiddu Saldanha  jidduks@uol.com.br  www.jiddusaldanha.com

 



Escrito por jidduks às 16h51
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